terça-feira, 31 de dezembro de 2013

O dia daquele dia em que o dia acaba rápido demais.



      Eu já tinha escolhido o meu vestido verde. Aliás, tinha escolhido verde porque tinham me dito que significava a esperança. Eu poderia ter escolhido uma cor menos abrangente, mas nesse ano que vinha eu precisava de esperança em todos as categorias da minha vida. Ao invés de escolher rosa para simbolizar o amor, ou o amarelo para ter mais dinheiro, ou laranja com ousadia, eu tinha escolhido o verde da esperança para que eu tivesse muita esperança no amor, esperança em ter dinheiro, e esperança em ter uma vida mais ousada. 

    O relógio estava sendo insensível e mais uma vez parecendo passar os ponteiros com mais rapidez do que o resto do ano. Eu sei que normalmente eu não piraria por causa disso, mas, a sensação de que o tempo estava passando incontrolavelmente e -parecia água que escorria pelos dedos das mãos- era mais comum nessa época do ano. 

    Eu nem tinha terminado minha lista de desejos e metas para o ano que vem, quando os fogos já começaram. Aqueles fogos ansiosos que não queriam nem esperar o relógio dar meia noite. Eles não pareciam muito importante, mas eram importantes para mim, porque estavam mostrando o começo do inevitável. 

    Meus amigos acabaram viajando com suas próprias famílias, e eu acabei optando por passar meu ano novo sozinha em algum lugar que tivesse algum lago e várias pessoas também se encontrassem. Bom, naquele momento, tinha uma multidão do meu lado, na minha frente e atrás de mim e mesmo assim eu ainda me sentia um pouco sozinha. Mas eu continuava dizendo que estava tudo bem e que tudo ficaria bem quando alguém estourasse o seu champanhe. 

   Quando faltavam quinze minutos para o relógio dar a tão esperada meia noite, comecei a fazer minhas listas com pressa, tentando pensar em tudo que eu não poderia esquecer no dia seguinte. Ser mais paciente, amar mais as pessoas como se não houvesse amanhã, perder alguns quilos e talvez entrar na academia, dar adeus a aqueles amores do passado que não tiveram fim, ser menos possessiva e um pouco menos ciumenta com as pessoas, e todos aqueles defeitos que todo mundo tinham me jogado na cara quando eu entrava em brigas e discussões...

    Mas apesar de tudo algo ainda me incomodava. Cinco minutos e eu não iria dar a ninguém um beijo de início de ano. Afinal, os filmes românticos que eu vi durante o ano inteiro e que tinham a temática do réveillon tinham uma regra clara: todo mundo tem que dar um beijo à meia noite. 

   Eu tinha cinco minutos e então comecei a ficar meio desesperada para me encaixar em algum grupo de amigos que não iriam se incomodar se mais alguém entrasse no grupo. E eu adorava o ano novo por causa disso: todo mundo ficava muito mais amigável, mesmo que tenha sido por causa de alguma ajudinha de um vinho ou outro. 

   Conheci um grupo de amigos bem legais. Eles eram um pouco hippies e todos usavam roupas cor de branco, sem se importarem por estarem agregando uma mulher-cor-de-verde. Começaram a cantar músicas e me colocarem nas rodinhas com os braços por cima dos meus ombros e eu já estava lá, como se fosse fã de hippie número 1 e rindo da vida, achando-a linda e maravilhosa, sem mesmo conseguir lembrar porque eu não tinha mesmo gostado desse ano. 

   " Quais são suas promessas?" perguntou uma das hippies que estava do meu lado e que segurava uma taça em mãos e usava flores no cabelo impecável. 
  
   " A mesma de todas, eu acho. Emagrecer e tal" gritei porque o som das pessoas gritando ao nosso lado já estava me incomodando. Dois minutos. 

    A mulher não fez nenhum comentário mais e só deu um sorriso torto. Então, eu acabei tendo que me render:

   " E você?" 

   "Eu só quero ser feliz"

   "Isso não deveria ser uma meta independente do ano novo?" perguntei. 

   " E é. Mas eu tenho que emagrecer vários quilos, tenho que me preocupar em ter menos defeitos físicos e de personalidade, tenho que me preocupar em todos os anos em ser alguém mais perfeita ainda. Então, no final das contas, eu  tenho que me prometer ser feliz com todos esses defeitinhos aqui." 

   Dez segundos. 

   E aqueles dez segundos passaram rápidos para quem estava refazendo a lista de metas mentalmente. Quando os fogos de artifício ocuparam todo o céu e alguém abriu o champanhe, me abracei com aquelas pessoas que tinha conhecido ali mesmo. Com aqueles novos amigos que aquele ano ainda tinha me trazido mesmo nos últimos minutos; e então joguei um beijo no ar. 

   Minha meta esse ano era me amar. 
    

  

Nenhum comentário:

Postar um comentário